Ping-pong | Governança, tecnologia e desenvolvimento no DF

Carlos Jacobino, presidente do Sinfor-DF

1 – Como o senhor avalia o estágio atual da transformação digital no Distrito Federal?
O Distrito Federal avançou em infraestrutura e em algumas frentes de digitalização de serviços, mas ainda opera sem uma governança própria para a transformação digital. Atualmente, essa agenda está vinculada à Secretaria de Economia, o que cria limitações operacionais e entraves burocráticos. A tecnologia precisa ser tratada como política estruturante de Estado, com coordenação dedicada, visão de longo prazo e capacidade de articulação entre áreas.

2 – Por que a ausência dessa estrutura específica é um problema para o DF?
Porque o DF é a única unidade da federação que não conta com um órgão dedicado exclusivamente à transformação digital. Essa ausência fragmenta decisões, dificulta a coordenação entre secretarias e reduz a atratividade do território para projetos inovadores. Sem uma instância própria, a tecnologia perde centralidade e velocidade, justamente em um ambiente que concentra grandes demandantes públicos e decisões estratégicas.

3 – É nesse contexto que surge a proposta do Conselho de Transformação Digital do DF?
Exatamente. O Sinfor-DF propôs o Conselho de Transformação Digital pensando em um espaço de coordenação estratégica, capaz de alinhar prioridades, integrar políticas públicas e estabelecer diretrizes claras para o uso da tecnologia no Distrito Federal. Ele permite diálogo estruturado entre governo, setor produtivo, academia e sociedade, reduzindo sobreposições e aumentando a efetividade das iniciativas.

4 – O Sinfor-DF também propõe a criação de uma empresa pública de tecnologia da informação? Qual seria o papel dela?
A empresa pública de TI complementa essa governança. Ela cria capacidade operacional permanente para executar a estratégia definida, profissionalizar a gestão tecnológica, reduzir dependências fragmentadas e dar escala às soluções digitais. Sem uma estrutura desse tipo, o Estado tende a operar de forma reativa, com contratos dispersos e pouca continuidade institucional.

5 – Como essa proposta dialoga com a melhoria dos serviços públicos ao cidadão?
Uma governança clara e uma estrutura dedicada permitem acelerar projetos voltados ao cidadão, especialmente em áreas como saúde, educação, segurança e atendimento digital. A ausência desse arranjo dificulta a atração de soluções inovadoras e a implementação de tecnologias mais eficientes. Com coordenação e capacidade técnica, o Estado entrega serviços mais integrados, confiáveis e acessíveis.

6 – O senhor tem defendido que o setor público é o motor do desenvolvimento tecnológico. Como isso se conecta a essa agenda?
O setor público, especialmente no DF, tem papel decisivo na organização do mercado de tecnologia. Quando o Estado planeja, compra e executa com visão estratégica, ele cria escala, induz inovação e fortalece empresas locais. Sem governança, esse potencial se perde. Por isso, estrutura institucional e compras públicas caminham juntas.

7 – O Sinfor-DF aponta três pilares estruturais para o fortalecimento do setor. Quais são eles?
O fortalecimento do ecossistema de TI no DF passa por segurança jurídica, funding adequado e compras públicas inovadoras. Segurança jurídica dá previsibilidade ao investimento. Funding cria condições para crescimento e inovação. Compras públicas, quando bem desenhadas, induzem desenvolvimento tecnológico e fortalecem empresas nacionais, especialmente em setores estratégicos.

8 – As compras públicas seguem sendo um ponto sensível. O que precisa evoluir?
É preciso avançar para modelos de contratação que valorizem qualidade técnica, segurança, governança e capacidade de evolução das soluções ao longo do tempo. Compras públicas não podem ser apenas transacionais; elas precisam funcionar como instrumento de política de desenvolvimento tecnológico, especialmente em um território com o peso institucional do DF.

9 – Como essa agenda se relaciona com a definição de uma vocação tecnológica para Brasília?
Governança é pré-condição para vocação. O DF tem potencial claro para se tornar referência em GovTech, desenvolvendo soluções para o setor público. Mas isso exige foco, coordenação e estrutura. Sem esses elementos, a vocação permanece apenas como discurso, não como estratégia de desenvolvimento.

10 – O Sinfor-DF também tem atuado no acompanhamento da agenda regulatória e tributária. Por quê?
Porque decisões regulatórias e tributárias impactam diretamente a capacidade das empresas de investir, inovar e crescer. A criação de comissões para acompanhar temas como a tributação de dividendos reflete a necessidade de antecipar cenários e oferecer leitura qualificada ao setor, especialmente em um ambiente de incerteza.

11 – Qual é a visão de futuro do Sinfor-DF para o Distrito Federal?
Nossa visão é construir uma governança em rede que permita ao Distrito Federal assumir protagonismo tecnológico. Queremos um Estado com coordenação clara da transformação digital, capacidade operacional própria e diálogo permanente com o ecossistema. Isso cria as condições para que Brasília se consolide como um centro de referência em soluções tecnológicas voltadas a desafios reais do setor público e da sociedade.

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