Dados, pessoas e tempo de resposta: o seguro já opera na mesma lógica da tecnologia, diz CEO da Rainha Seguros
Regina Lacerda diz que a transformação digital tornou o seguro mais rápido e preciso e defende que empresas tratem proteção como camada de continuidade de negócios
A CEO da Rainha Seguros, Regina Lacerda, que liderou um painel com executivos de grandes grupos do setor durante a 7ª Mostra Brasília Mais TI, explica que a agenda de TI e a agenda do seguro já se encontram em três pontos: dados, pessoas e tempo de resposta. Na entrevista, ela detalha como o setor tem usado tecnologia para tornar o seguro mais justo e acessível, explica por que o Brasil ainda é subpenetrado em coberturas básicas e defende que benefícios corporativos e proteção cibernética devem entrar no radar de empresas de tecnologia como decisão de gestão e não apenas como custo.
Com 34 anos a frente da empresa, Regina Lacerda explica que a transformação digital chegou ao seguro de forma silenciosa, com precificação baseada em mais dados, assinatura eletrônica, indenização mais rápida e redução de fraudes com processos rastreáveis. Mas a medida que empresas de tecnologia ampliam sua exposição a riscos operacionais, contratuais e reputacionais — de vazamentos de dados à instabilidade de serviços — o seguro passa a ser percebido como instrumento de continuidade de negócios e proteção de riscos.
Ao tratar de benefícios corporativos, a empresária explica que coberturas como planos odontológico, funeral e vida em grupo funcionam como instrumento de atração e retenção de talentos. “Com impacto bastante positivo contra absenteísmo e rotatividade”, explica.
Sinforme — Por que levar o seguro para um evento de tecnologia como o Brasília Mais TI?
Regina Lacerda — O seguro já depende de tecnologia para funcionar melhor, com mais precisão e menos fricção. Mas o setor costuma discutir isso entre si, em congressos e fóruns. No Brasília Mais TI, a proposta foi conversar com o público de TI: mostrar o que já mudou no seguro e por que empresas de tecnologia precisam olhar para proteção como parte do negócio.
Sinforme — Onde, na prática, TI e seguro se cruzam com mais força hoje?
Regina — Em três pontos: dados, pessoas e tempo de resposta. Dados porque precificação, risco e fraude passam por informação e rastreabilidade. Pessoas porque benefícios e proteção de vida e saúde impactam retenção e estabilidade. E tempo de resposta porque o tamanho do dano depende da capacidade de reagir rápido, seja num sinistro, seja num incidente operacional.
Sinforme — Executivos de grupos como Tokio Marine, Porto e GFT participaram do painel. Qual foi o principal recado?
Regina — O head de TI da Tokio Marine, o head de TI da Porto e uma diretora sênior da GFT vieram a Brasília exclusivamente para esse painel. Isso mostra que o seguro já se transformou por dentro com tecnologia e entendeu a importância do ecossistema de TI. A tecnologia, por sua vez, precisa acompanhar essa transformação.
Sinforme — O que vocês fizeram questão de colocar na mesa para o público de TI?
Regina — Três linhas. A primeira é a experiência do cliente: assinatura digital, fluxo documental mais rápido e sinistro com menos atrito. A segunda é a precificação: mais dados e modelos melhores tornam o preço mais aderente ao risco real. A terceira é a proteção digital, com seguro cibernético e a discussão de LGPD, vazamento de dados e continuidade.
Sinforme — O que muda para uma empresa de tecnologia quando ela passa a tratar seguro como parte da continuidade do negócio?
Regina — O risco operacional já é risco de negócio. Empresas de TI operam com exposição a pessoas, ativos, dados, responsabilidade e continuidade — e isso pede proteção. Ao mesmo tempo, tecnologia virou infraestrutura do seguro: precificação, subscrição, regulação de sinistros, prevenção de fraude e atendimento dependem de sistemas e automação. O evento ajuda a colocar esse tema no radar de quem decide.
Sinforme — O que mudou no seguro com a digitalização acelerada nos últimos anos?
Regina — Mudou a experiência do cliente e o fluxo de operação. O que exigia deslocamento, papel e etapas lentas hoje pode ser resolvido com assinatura eletrônica, envio estruturado de documentos e validação digital. Isso encurta o ciclo de indenização e melhora o serviço. O seguro evoluiu muito nos últimos cinco anos.
Sinforme — Mais dados e automação mudam a forma de precificar risco e isso chega no preço final?
Regina — Sim. O atuário trabalha com matemática e modelagem para precificar risco. Com mais dados e ferramentas melhores, a precificação tende a ficar mais aderente ao risco real. Isso tem efeito direto no consumidor e também no ambiente corporativo, porque permite calibrar melhor o custo de proteção.
Sinforme — E quanto a fraude pesa nessa conta — e onde a tecnologia reduz esse impacto?
Regina — Fraude é um dos fatores que pressionam preço. Quanto mais inconsistência e fraude, mais caro fica o sistema. A tecnologia reduz isso com rastreabilidade: vistorias estruturadas, registros organizados, evidência digital e menos espaço para manipulação de informação.
Sinforme — Em que ponto o seguro deixa de ser periférico e vira variável de continuidade para empresas de tecnologia?
Regina — Quando a empresa entende que risco não é exceção. Operação, dados, contratos e entregas podem falhar, e o que importa é a capacidade de responder. O seguro entra como instrumento de continuidade e de redução de dano. E empresas de tecnologia também ajudam o setor de seguros a avançar, com soluções mais simples e eficientes.
Sinforme — O seguro cibernético já entrou no radar do setor de TI?
Regina — O tema de perda de informação, indisponibilidade de sistemas e impacto em clientes ficou central. Um incidente não é só técnico: afeta contrato e reputação. O seguro cibernético faz parte dessa discussão, junto com governança e LGPD.
Sinforme — O que as empresas de TI precisam observar com mais atenção?
Regina — Que risco não é só ataque. Pode ser erro humano, falha de processo ou dependência de fornecedor. E o tamanho do prejuízo depende do tempo de resposta e da capacidade de recuperar operação.
Sinforme — A senhora tem defendido o seguro como instrumento de gestão. Qual é a lógica?
Regina — Benefícios são parte da estabilidade da empresa. Em tecnologia, a rotatividade custa caro porque leva junto conhecimento e continuidade de entrega. Coberturas coletivas como odontológico, vida e funeral têm custo relativamente baixo por pessoa e entregam valor real em momentos críticos.
Sinforme — O empresário costuma olhar isso como custo. Como a senhora traduz essa decisão?
Regina — Como previsibilidade. O seguro organiza o risco e reduz o impacto financeiro quando algo acontece. A empresa não controla tudo, mas pode se preparar para sofrer menos dano e responder melhor.
Sinforme — Para o empresário, qual é o ponto de partida para tratar proteção como parte da estratégia do negócio?
Regina — Começa por entender que seguro entra como continuidade e governança, porque dados, pessoas e tempo de resposta definem o tamanho do dano. Na prática, isso vira decisão: vida, saúde e odontológico para dar estabilidade à equipe; proteção patrimonial e de frota para resguardar ativos; e seguro cibernético quando a operação envolve dados, sistemas críticos e responsabilidade perante clientes. TI convive com risco todos os dias; o seguro organiza resposta e dá previsibilidade.