Da engenharia das urnas ao compliance com IA: as apostas de quem estruturou tecnologia no DF
Nesta entrevista, Avaldir Oliveira conta como construiu das mais importantes empresas de TI do Brasil e fala da sua aposta para o futuro
A trajetória de Avaldir Oliveira se confunde com a consolidação da tecnologia no país. Na década de 1990, ele saiu de uma sala de 27 m² para construir uma das maiores e mais importantes empresas brasileiras de tecnologia da informação do Brasília, a CTIS Tecnologia.
Atualmente, aos 74 anos, com a CTIS vendida e uma trajetória marcada por disciplina e expansão nacional, ele percorre um novo caminho: investir em soluções de compliance com inteligência artificial, CRM para grandes operações, acessibilidade digital em Libras e educação gratuita com alto alcance social.
“Por décadas tive disciplina para trabalhar 12 horas por dia. Eram 8 horas no operacional e 4 horas no planejamento. Mas resolvi não me aposentar. Hoje invisto em 4 startups que resolvem problemas reais”, conta o empresário-investidor.
Acompanhe os principais trechos da conversa com o Sinforme:
Sinforme — A CTIS surgiu em um momento em que não se fala ainda em TI? O que levou o senhor e entrar em um território tão desconhecido e criar a CTIS?
Avaldir Oliveira — Minha formação é em processamento de dados, como se chamava na época. Em 1983 eu chefiava o departamento de informática da companhia energética de Brasília. Mas eu sentia que podia contribuir mais e não me encaixava em uma rotina acomodada de serviço público. Em 1985, aos 31 anos, casado e com três filhas, abri a CTIS com um sócio, uma secretária e um office boy, em uma sala de 27 metros quadrados. Fazíamos consultoria, treinamento e, em seguida, passamos a desenvolver software.
Sinforme — O início coincidiu com o período de hiperinflação. Como foi atravessar essa fase?
Avaldir — Foi um exercício diário de sobrevivência. Juros altíssimos, inflação corroendo margens, contratos perdendo valor de um mês para o outro. Houve fase de “carro zero para carro usado”, como costumo dizer. A empresa se manteve em pé com persistência. Mas tínhamos também uma gestão rigorosa de caixa e relacionamento próximo com clientes.
Sinforme — Qual episódio marcou o ponto de virada da CTIS?
Avaldir — Em 1987 ou 1988, tínhamos um contrato pequeno com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que estava perto do fim. Em um sábado, recebi ligação de um diretor do Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo um trabalho urgente. Mas era fim de semana e nenhuma empresa estava aberta. Fomos com um desktop inteiro debaixo do braço, torre, monitor e teclado, e entregamos o serviço. Esse trabalho nos ajudou a pavimentar a entrar no STF. Pulamos de cerca de dez para cem pessoas e, na eleição de 1989, chegamos a mobilizar aproximadamente 400 profissionais entre analistas e suporte. Foi o momento em que o tribunal estruturou de vez a área de tecnologia, e a CTIS fez parte desse arranque.
Sinforme — A empresa se tornou uma referência nacional. Como se deu essa expansão?
Avaldir — Entre o fim dos anos 1990 e o início dos anos 2000, passamos a atuar com contratos mais complexos e presença em quase todas as capitais. Entramos forte em varejo com soluções de CRM, captura de notas fiscais, cadastros, campanhas e relacionamento. Em 2013, a CTIS já era uma empresa de tecnologia de capital nacional relevante, com atuação em software e serviços. Em 2014, vendi o controle para um grupo chileno, que realizava uma série de aquisições no Brasil, incluindo a CTIS. Permaneci como executivo até 2018, acompanhando integração, governança e consolidação da operação.
“Saí do operacional. Hoje escolho problemas grandes e times que podem resolvê-los”
Sinforme — Qual é a sua atuação hoje, depois da venda e da saída da gestão direta?
Avaldir — Atuo como investidor-anjo e conselheiro. Gosto de escolher segmentos com dores claras, modelo escalável e times com capacidade real de execução. Hoje tenho participação em quatro startups que seguem essa lógica.
Sinforme — Quais são essas startups e o que cada uma entrega?
Avaldir —
- GetCompliance – Plataforma de conformidade e segurança da informação com uso intensivo de inteligência artificial. Ela coleta e organiza comunicações corporativas, como e-mails e WhatsApp corporativo, além de documentos e anexos, em um repositório de auditoria. A IA busca indícios de risco: assédio moral ou sexual, fraude em notas fiscais, práticas anticoncorrenciais, racismo, corrupção e outras condutas sensíveis. Cada tipo de alerta dispara um fluxo específico, que pode envolver Jurídico, RH, Financeiro ou a área de Compliance. A tecnologia reduz perdas e ainda cria atenuantes perante órgãos de controle se algum episódio ocorrer. Hoje temos algo em torno de cinco a seis clientes ativos e um funil com cerca de 30 prospectos, começando por Brasília e expandindo via parceiros.
- Inc (CRM & campanhas) – Solução de CRM e campanhas para shopping centers e redes de supermercados. Faz gestão de cadastros, captura de notas, cupons, sorteios e campanhas de relacionamento. Atende, entre outros, Brasília Shopping e Terraço Shopping, e há mais de dez shoppings de grande porte em fase de negociação ou contratação.
- Libera – Plataforma de acessibilidade digital em Libras. É um widget que traduz conteúdo de sites para Libras, ajusta contraste e tamanho de fonte e oferece avatar ou intérprete para vídeos. Também atende centrais de atendimento via vídeo, acionando intérpretes sob demanda, em um modelo próximo a um “Uber” de Libras. Já são cerca de 300 clientes, e um dos casos é o Bradesco, que usa a tecnologia em vídeos de treinamento. A tendência regulatória caminha para exigência de acessibilidade e aplicação de penalidades, o que torna esse mercado bastante promissor.
- Passei.ai – Preparatório gratuito para o Enem com apoio de IA. Carregamos 12 anos de provas e dezenas de milhares de questões. A plataforma monta simulados mensais, corrige automaticamente e cria trilhas personalizadas com videoaulas curtas, de cerca de cinco minutos, por habilidade. Há ranking e possibilidade de parcerias com universidades, que podem oferecer bolsas e benefícios para os alunos com melhor desempenho. O modelo de negócios se baseia em publicidade, com banners e vídeos curtos, e em acordos com instituições de ensino.
Sinforme — Por que começar justamente por uma solução de compliance?
Avaldir — Porque ética, dados e reputação caminham juntos. Uma empresa cliente sofreu uma fraude de aproximadamente R$ 5 milhões ao longo de três anos. Com uma plataforma estruturada de governança, a chance de detectar o problema cedo e reduzir ou até eliminar esse prejuízo seria muito maior. Compliance desenhado com tecnologia tende a se pagar, pelo que evita de perdas financeiras, crises e sanções regulatórias.
Sinforme — Como funciona o monitoramento de mensagens, especialmente no WhatsApp?
Avaldir — Trabalhamos apenas com WhatsApp corporativo, dentro de uma política clara de uso e com consentimento formal. O objetivo é governança, não vigilância. A empresa define quais canais e quais tipos de mensagens entram no repositório de auditoria, da mesma forma que faz há anos com e-mails corporativos. A inteligência artificial não substitui o julgamento humano. Ela identifica padrões e indícios e encaminha para as equipes responsáveis decidirem.
Sinforme — Que papel a inteligência artificial passou a ter nessa nova fase?
Avaldir — A inteligência artificial está presente nas quatro teses. No GetCompliance, filtra milhões de sinais, cruza variáveis e ajuda a priorizar riscos relevantes. No Passei.ai, gera simulados, corrige provas, identifica defasagens e monta trilhas personalizadas de estudo. Na Libera, treina modelos para reconhecer centenas de milhares de sinais de Libras e tornar a interação mais fluida. Na Inc, organiza dados de comportamento de consumo e melhora a segmentação de campanhas. A IA amplia a capacidade dos times. Não substitui gente preparada; potencializa.
Sinforme — Que conselhos senhor daria a quem está começando a empreender em tecnologia hoje?
Avaldir — Trabalho consistente vence improviso. Recomendo uma fase longa de 12 horas por dia: oito horas no operacional e quatro horas em planejamento, análise e construção de futuro. Quando se soma essa disciplina por 20 anos, o resultado é um volume de horas dedicadas muito superior ao da média dos concorrentes. Somo a isso uma forma de olhar o mundo: tudo funciona como vitrine de ideias e problemas que podem ser resolvidos. Valores claros e rede de relacionamentos bem cuidada fortalecem a trajetória, porque ninguém cresce sozinho. E existe a vida pessoal: presença qualitativa com a família, cuidado com saúde. Faço academia de madrugada e jogo tênis cinco vezes por semana. Disciplina cria base para atravessar ciclos bons e ruins.
Sinforme — Como o senhor enxerga hoje o mercado de tecnologia no Distrito Federal?
Avaldir — O DF tem um ecossistema forte, com empresas experientes em projetos complexos, especialmente na área pública. Essa trajetória criou competências importantes. O movimento que enxergo para os próximos anos está na ampliação do peso do setor privado, com serviços de inteligência artificial, governança, segurança da informação e soluções escaláveis para fora de Brasília. Quem conseguir posicionar times, produtos e comercial nessa direção tende a ganhar escala.
Sinforme — O que fica depois de quatro décadas de atuação em tecnologia?
Avaldir — Não existe fórmula única. O que se observa são ingredientes recorrentes: trabalho consistente, planejamento, ética, resiliência, capacidade de ler o timing e respeito às pessoas. Esse respeito inclui quem saiu da empresa para empreender e continua contribuindo para o setor. Sempre digo que, enquanto a pessoa está na empresa, a empresa ocupa um lugar importante no coração dela; quando ela sai, uma empresa nasce no coração dessa pessoa. Esse efeito multiplicador ajuda a construir um ecossistema.