CIIA pretende impulsionar inteligência artificial no Distrito Federal em 2026
O Centro Integrado de Inteligência Artificial do Distrito Federal dá acesso a 160 cursos gratuitos em 9 especializações pela plataforma Grow with Google
O coordenador do Centro Integrado de Inteligência Artificial (CIIA), Ricardo Sampaio, afirma que o CIIA-DF foi criado para pensar inteligência artificial como política pública. Para o início de 2026, a meta é entregar um planejamento com estratégias definidas para o desenvolvimento de soluções, voltada para à adoção estruturada de IA, com orientação sobre os investimentos do governo, a atuação da indústria e a formação de competências em áreas prioritárias de serviços públicos.
A atuação do CIIA se estrutura em três frentes: um sistema de governança baseado na tríplice hélice — governo, setor produtivo e academia —, quatro eixos operacionais que organizam pesquisa, inovação, desafios e capacitação, e um laboratório multiusuário que coloca infraestrutura avançada de IA à disposição do Distrito Federal.
Na entrevista a seguir, o coordenador do CIIA, Ricardo Sampaio, detalha como esse desenho cria demanda concreta para a indústria de tecnologia e amplia a capacidade do governo de contratar soluções inovadoras. Mas ressalta que, uma das principais preocupações, é com a capacitação da população e dos trabalhadores.
“Estamos capacitando tanto startups quanto qualquer funcionário da indústria que queira trabalhar com tecnologia. Estamos com 160 cursos em 9 especializações, em um parceria com Google. São cursos gratuitos pelo CIIA, porque esses cursos custam mais de US$ 200”, explica Ricardo Sampaio.
Sinforme — Para começar, o que é o CIIA e qual é o seu papel dentro do governo?
Ricardo Sampaio — O CIIA é o Centro Integrado de Inteligência Artificial do Distrito Federal. Ele nasce com o objetivo de ser o centro do governo para pensar, de forma estratégica, as demandas relacionadas à inteligência artificial. Quando falamos de IA, não estamos falando apenas de ferramentas como o ChatGPT. Estamos falando de automação de serviços, análise de dados em larga escala, otimização de processos e de praticamente tudo o que hoje atravessa a tecnologia da informação. A IA se tornou uma tecnologia de uso geral, presente inclusive em camadas de infraestrutura e hardware.
Sinforme — E por que um centro de IA dentro do governo?
Ricardo Sampaio — Historicamente, os centros de inteligência artificial no Brasil e no mundo se concentraram na academia ou em grandes empresas de tecnologia, as big techs, que investem fortemente em pesquisa. O CIIA se posiciona de forma complementar, como um centro de pesquisa aplicada do governo. Em Brasília, isso tem um peso especial, porque o governo é o maior comprador do país e o principal indutor de demanda tecnológica. As soluções desenvolvidas para secretarias e órgãos públicos inevitavelmente geram demanda para a indústria, que é quem faz a sustentação, a evolução e a escala dessas soluções.
Sinforme — Muito se fala da tríplice hélice. Como ela opera na prática no DF?
Ricardo Sampaio — A tríplice hélice, que é a reunião do governo, academia e setor produtivo, aparece em praticamente todos os ecossistemas tecnológicos maduros. O Vale do Silício é um exemplo clássico: universidades fortes formam pessoas e conhecimento, o governo investe em pesquisa e cria ambiente regulatório, e o setor produtivo transforma isso em soluções. No DF, o desenho é semelhante, mas com uma característica própria: o peso do governo como demandante.
Sinforme — Como isso se traduz nas ações do CIIA?
Ricardo Sampaio — O CIIA capta recursos públicos e articula a academia para desenvolver soluções de ponta para problemas reais do governo. Essas soluções são entregues às secretarias como provas de conceito, as POCs. A partir daí, entra a indústria, que tem a capacidade de dar continuidade, suporte, melhoria e escala. É nesse ponto que surgem oportunidades concretas para empresas de tecnologia.
Sinforme — Como o CIIA estrutura essa operação no dia a dia?
Ricardo Sampaio — Trabalhamos a partir de quatro eixos. O primeiro é o eixo de pesquisa, voltado ao desenvolvimento de soluções aplicadas a problemas concretos apresentados pelas secretarias. O segundo é o eixo de inovação e empreendedorismo, que envolve a aproximação com startups e empresas, com encontros periódicos e troca constante. O terceiro é o eixo de desafios, em que problemas são lançados para que a sociedade e o ecossistema proponham soluções, em modelos próximos a hackathons ou crowdsourcing. O quarto eixo é o de treinamento e capacitação, que prepara pessoas para desenvolver, contratar e utilizar essas tecnologias.
Sinforme — Quais áreas concentram as primeiras iniciativas?
Ricardo Sampaio — Começamos por áreas com grande impacto social e operacional, como saúde, educação, mobilidade urbana, agricultura e políticas para mulheres. Há projetos em discussão com a Secretaria de Mobilidade, a Secretaria da Mulher, a Secretaria de Agricultura e a Secretaria de Saúde, sempre partindo de dores claramente identificadas.
Sinforme — De onde surgem essas demandas?
Ricardo Sampaio — Elas vêm diretamente do governo. Diferente do mercado privado, onde muitas vezes se tenta vender uma solução que talvez encontre um problema, aqui partimos da dor concreta. Na saúde, por exemplo, a grande questão é o complexo regulador, a fila. Como tornar a marcação de consultas e exames mais eficiente? Quando isso melhora, há impacto direto na contratação de serviços, inclusive da indústria que presta apoio à área da saúde.
Sinforme — Pode dar exemplos de soluções em desenvolvimento?
Ricardo Sampaio — Há propostas em mobilidade urbana envolvendo o uso de câmeras em ônibus para identificação de pessoas em situação de busca, projetos com drones para logística e entregas, soluções de mapeamento da produção agrícola local para abastecimento da rede pública de ensino, além de propostas em discussão para atendimento a mulheres em situação de risco por meio de sistemas de conversação em tempo real.
Sinforme — Como entra o Contrato Público para Solução Inovadora (CPSI)?
Ricardo Sampaio — Quando entregamos uma POC, ela já vem preparada para contratação via CPSI, prevista no Marco Legal das Startups. É uma modalidade que aceita risco e permite contratos de até R$ 1,4 milhão para dar continuidade à solução. No nível federal, já é utilizada por órgãos como Petrobras e CNJ. No DF, ainda é pouco explorada. O papel do CIIA é dar segurança técnica e institucional para que os gestores públicos utilizem esse instrumento, o que abre oportunidades claras para a indústria.
Sinforme — Como o CIIA trabalha o letramento e a capacitação em IA?
Ricardo Sampaio — A capacitação é transversal a tudo. Trabalhamos com diferentes públicos: estudantes do ensino médio e universitário, gestores públicos e profissionais da indústria. Hoje, oferecemos acesso gratuito a mais de 160 cursos por meio de licenças educacionais e nove especializações com certificação. Também há capacitações presenciais em parceria com a Escola de Governo. Já ultrapassamos a marca de mil pessoas capacitadas no DF.
Sinforme — Como o interessado acessa essas formações?
Ricardo Sampaio — Pelo site do CIIA ou pela nossa comunidade no Discord. A ideia é manter esse acesso aberto, justamente para ampliar a base de competências do ecossistema local.
Sinforme — Qual é o papel do laboratório dentro do CIIA?
Ricardo Sampaio — O Laboratório Multiusuário de Inteligência Artificial, o LIA, é a terceira perna dessa estrutura. A ideia é chegar, até o fim de 2026, a um parque com mais de R$ 8 milhões em infraestrutura, especialmente GPUs de alto desempenho, fundamentais para o treinamento de modelos de IA. Ao disponibilizar essa infraestrutura em modelo colaborativo, tornamos viáveis projetos que seriam economicamente inviáveis para empresas ou instituições isoladas.
Sinforme — Quem pode usar esse laboratório?
Ricardo Sampaio — O laboratório atende tanto demandas do governo quanto demandas locais do ecossistema. Diferente de estruturas fechadas, ele existe para desenvolver competências e soluções no DF, com impacto direto sobre serviços públicos e sobre a indústria.
Sinforme — Como o senhor resume a lógica do CIIA?
Ricardo Sampaio — O CIIA se organiza a partir de uma tríade: governança, quatro eixos operacionais e laboratório. A governança pensa o todo, como melhorar serviços públicos, formar pessoas, atender à indústria e garantir acesso à tecnologia para quem tem e para quem não tem recursos. A inteligência artificial precisa servir à população como um todo. Esse é o princípio que orienta todas as decisões.