Governo digital avança, mas enfrenta desafio de retenção em TI, diz presidente da ANATI

Luiz Alexandre Silva alerta para evasão de servidores, salários defasados e risco de instabilidade em políticas públicas e perda de capacidade operacional nos serviços digitais

O avanço do governo digital no Brasil depende cada vez mais de sistemas críticos, mas enfrenta um problema interno: a perda acelerada de profissionais de tecnologia no serviço público. Segundo o presidente da Associação Nacional dos Analistas de Tecnologia da Informação (ANATI), Luiz Alexandre Silva, a carreira federal de ATIs vive um “apagão silencioso”, com evasão, dificuldade de reposição e risco à continuidade dos serviços digitais.

Em entrevista para o Sinforme, ele alerta sobre o insucesso das políticas de retenção adotadas pelo Governo Federal, a ausência de capacitação adequada em órgãos SISP, sobre a falta de padronização tecnológica e afirma que empresas interessadas em atuar com o governo precisam alinhar propostas/soluções ao planejamento dos órgãos públicos já vigentes. E deixa um recado para o empresário de TI: “O empresário precisa conhecer o plano de transformação digital de cada órgão, dominar o Plano Diretor de Tecnologia da Informação (PDTI) vigente. Quando entende a necessidade real, a conversa vira parceria e não oferta genérica”, explica.

Sinforme — O governo tem tido dificuldade de manter profissionais de TI?
Luiz Alexandre Silva — O problema central é retenção. A carreira de Analista em Tecnologia da Informação – ATI do Governo Federal teve forte evasão na última década. Muitos que entraram em 2015 estão saindo agora, e quem chega leva anos para atingir maturidade. Quando o servidor fica pronto, o mercado privado — e até o exterior — oferece um salário maior, e claro compatível com as atribuições do cargo. Além é claro de garantir o  trabalho remoto. O que acontece hoje é que o Estado investe em formação pensando nos anos 2000 ainda, então o ATI se forma, faz capacitações e logo em seguida fica tão maduro profissionalmente que não consegue mais segurar o profissional, perdendo ele  na sequência, seja para o ente privado, como para outras carreiras do serviço público.

Sinforme — O novo concurso não mudou esse cenário?
Luiz Alexandre — Ajuda, mas parcialmente. Das 500 vagas, 182 concluíram o curso de formação e cerca de 150 tomaram posse. O curso foi presencial, na Academia da Polícia Federal, e muitos candidatos desistiram por logística e custo pessoal. E mesmo entre os que entraram, já há gente migrando para outros concursos e para o setor privado. Com salário inicial em torno de R$ 11 mil e teto de R$ 21 mil, após 20 anos de serviços prestados, fica difícil competir com carreiras equivalentes que começam com inicial entre 18 e 22 mil e chegam ao teto entre R$ 30 e 35 mil.

Sinforme — A tendência é de redução no quadro de analistas? O que o governo perde se isso continuar?
Luiz Alexandre — O risco real é colapso digital. Serviços públicos essenciais dependem de equipes técnicas para operar, evoluir e manter segurança e claro de profissionais que liderem essas equipes. Já existem órgãos com equipe insuficiente para sustentar sistemas críticos. E ataques cibernéticos são permanentes: sem gente qualificada para monitorar e responder, o dano pode ser enorme, financeiro, reputacional e de soberania nacional.

Sinforme — O senhor costuma dizer que transformação digital começa depois do lançamento. Por quê?
Luiz Alexandre — Porque aplicativo não é entrega final. Se o sistema cai, o cidadão perde confiança. TI é sustentação: disponibilidade, segurança, continuidade. Cada serviço anunciado exige operação 24 horas, proteção de dados e capacidade de resposta. Esse trabalho é invisível, mas é o que mantém o Estado funcionando.

Sinforme — O Brasil tem infraestrutura para sustentar essa digitalização crescente?
Luiz Alexandre — É uma pergunta difícil, pois a resposta para a área de TI sempre será que estamos correndo atrás de estar UPTIME, ou 100% preparados para as ameaças do dia a dia, mas seria um ultrage chegar a esse nível, ainda mais na área de tecnologia. Nosso grande problema é que cada CIO ou responsável pela TI Federal, quer tende a ter sua própria solução, seu datacenter, sua arquitetura. Quando muda a gestão, muda o rumo — e parte do investimento se perde. O caminho é interoperabilidade, consolidação gradual de infraestrutura e padrão mínimo de segurança e arquitetura. Ou seja, ainda faltam mais políticas para melhorar a governança e padronização no SISP.Sinforme — O que significa ‘nuvem soberana’?
Luiz Alexandre — Significa manter dados sob jurisdição brasileira. Parte das bases pode estar em servidores fora do país, o que cria risco para soberania e privacidade. Nuvem soberana não é fechar o mercado; é garantir continuidade e controle. Infraestrutura digital hoje é tão estratégica quanto energia e logística.

Sinforme — E a inclusão digital?
Luiz Alexandre — É condição para a transformação funcionar. O Brasil é muito conectado por celular, mas ainda há regiões sem banda larga e grupos com barreiras de acesso. Serviço digital precisa ser acessível para idosos, pessoas com deficiência e comunidades isoladas. Se o cidadão não consegue usar, a política não entrega aquilo que ela foi pensada, ou seja, estamos correndo sérios riscos de ser ineficientes.

Sinforme — Que conselho o senhor daria a empresas que querem vender soluções ao governo?
Luiz Alexandre — Ouvir antes de vender. Muita gente chega com produto pronto, sem entender o diagnóstico do órgão. O empresário precisa conhecer o plano de transformação digital, Plano Diretor de Tecnologia da Informação (PDTI). Quando entende a necessidade real, a conversa vira parceria e não oferta genérica.

Sinforme — O que falta em capacitação?
Luiz Alexandre — Política contínua. TI muda muito rápido: linguagens, ameaças, métodos. O servidor precisa de tempo institucional e incentivo para se atualizar. Sem isso, a defasagem técnica vira risco de segurança.

Sinforme — Que mensagem o senhor deixa para o governo e a sociedade?
Luiz Alexandre — TI não é setor-meio. É o próprio Estado funcionando. Sem o trabalho dos Analistas em Tecnologia da Informação, serviços param, contratos não são bem geridos abrindo margens para falhas e desvios, equipes não sabem o que fazer na tempestade dos “problemas diários de tecnologia” faltando alguém para ser o direcionador e mediador de conflitos. Alguém que prospecta, analisa, planeja, institui, gerencia, controla, reporta e avalia as políticas públicas de TI. Quando não se pensa em todo o ciclo da política pública, dados ficam expostos e o principal acontece, perdemos a confiança e credibilidade do cidadão em acreditar no Governo Federal. Portanto, buscar valorizar essa carreira é investimento em soberania, eficiência e cidadania, é garantir que serviços como , FGTS Digital, Login Único do GOVBR, Carteira Nacional de Habilitação Digital, ConectaGOV, assinatura digital do GOVBR, Contrata+ Brasil, Carteira de Trabalho Digital, Portal GOV.BR, Alistamento Militar Online, Prova de Vida Online, além de outros mais de 3000 serviços públicos digitais.

Dados, pessoas e tempo de resposta: o seguro já opera na mesma lógica da tecnologia, diz CEO da Rainha Seguros

Regina Lacerda diz que a transformação digital tornou o seguro mais rápido e preciso e defende que empresas tratem proteção como camada de continuidade de negócios

A CEO da Rainha Seguros, Regina Lacerda, que liderou um painel com executivos de grandes grupos do setor durante a 7ª Mostra Brasília Mais TI, explica que a agenda de TI e a agenda do seguro já se encontram em três pontos: dados, pessoas e tempo de resposta. Na entrevista, ela detalha como o setor tem usado tecnologia para tornar o seguro mais justo e acessível, explica por que o Brasil ainda é subpenetrado em coberturas básicas e defende que benefícios corporativos e proteção cibernética devem entrar no radar de empresas de tecnologia como decisão de gestão e não apenas como custo.

Com 34 anos a frente da empresa, Regina Lacerda explica que a transformação digital chegou ao seguro de forma silenciosa, com precificação baseada em mais dados, assinatura eletrônica, indenização mais rápida e redução de fraudes com processos rastreáveis. Mas a medida que empresas de tecnologia ampliam sua exposição a riscos operacionais, contratuais e reputacionais — de vazamentos de dados à instabilidade de serviços — o seguro passa a ser percebido como instrumento de continuidade de negócios e proteção de riscos.  

Ao tratar de benefícios corporativos, a empresária explica que coberturas como planos odontológico, funeral e vida em grupo funcionam como instrumento de atração e retenção de talentos. “Com impacto bastante positivo contra absenteísmo e rotatividade”, explica.

Sinforme — Por que levar o seguro para um evento de tecnologia como o Brasília Mais TI?
Regina Lacerda — O seguro já depende de tecnologia para funcionar melhor, com mais precisão e menos fricção. Mas o setor costuma discutir isso entre si, em congressos e fóruns. No Brasília Mais TI, a proposta foi conversar com o público de TI: mostrar o que já mudou no seguro e por que empresas de tecnologia precisam olhar para proteção como parte do negócio.

Sinforme — Onde, na prática, TI e seguro se cruzam com mais força hoje?
Regina — Em três pontos: dados, pessoas e tempo de resposta. Dados porque precificação, risco e fraude passam por informação e rastreabilidade. Pessoas porque benefícios e proteção de vida e saúde impactam retenção e estabilidade. E tempo de resposta porque o tamanho do dano depende da capacidade de reagir rápido, seja num sinistro, seja num incidente operacional.

Sinforme — Executivos de grupos como Tokio Marine, Porto e GFT participaram do painel. Qual foi o principal recado?
Regina — O head de TI da Tokio Marine, o head de TI da Porto e uma diretora sênior da GFT vieram a Brasília exclusivamente para esse painel. Isso mostra que o seguro já se transformou por dentro com tecnologia e entendeu a importância do ecossistema de TI. A tecnologia, por sua vez, precisa acompanhar essa transformação.

Sinforme — O que vocês fizeram questão de colocar na mesa para o público de TI?
Regina — Três linhas. A primeira é a experiência do cliente: assinatura digital, fluxo documental mais rápido e sinistro com menos atrito. A segunda é a precificação: mais dados e modelos melhores tornam o preço mais aderente ao risco real. A terceira é a proteção digital, com seguro cibernético e a discussão de LGPD, vazamento de dados e continuidade.

Sinforme — O que muda para uma empresa de tecnologia quando ela passa a tratar seguro como parte da continuidade do negócio?
Regina — O risco operacional já é risco de negócio. Empresas de TI operam com exposição a pessoas, ativos, dados, responsabilidade e continuidade — e isso pede proteção. Ao mesmo tempo, tecnologia virou infraestrutura do seguro: precificação, subscrição, regulação de sinistros, prevenção de fraude e atendimento dependem de sistemas e automação. O evento ajuda a colocar esse tema no radar de quem decide.

Sinforme — O que mudou no seguro com a digitalização acelerada nos últimos anos?
Regina — Mudou a experiência do cliente e o fluxo de operação. O que exigia deslocamento, papel e etapas lentas hoje pode ser resolvido com assinatura eletrônica, envio estruturado de documentos e validação digital. Isso encurta o ciclo de indenização e melhora o serviço. O seguro evoluiu muito nos últimos cinco anos.

Sinforme — Mais dados e automação mudam a forma de precificar risco e isso chega no preço final?
Regina — Sim. O atuário trabalha com matemática e modelagem para precificar risco. Com mais dados e ferramentas melhores, a precificação tende a ficar mais aderente ao risco real. Isso tem efeito direto no consumidor e também no ambiente corporativo, porque permite calibrar melhor o custo de proteção.

Sinforme — E quanto a fraude pesa nessa conta — e onde a tecnologia reduz esse impacto?
Regina — Fraude é um dos fatores que pressionam preço. Quanto mais inconsistência e fraude, mais caro fica o sistema. A tecnologia reduz isso com rastreabilidade: vistorias estruturadas, registros organizados, evidência digital e menos espaço para manipulação de informação.

Sinforme — Em que ponto o seguro deixa de ser periférico e vira variável de continuidade para empresas de tecnologia?
Regina — Quando a empresa entende que risco não é exceção. Operação, dados, contratos e entregas podem falhar, e o que importa é a capacidade de responder. O seguro entra como instrumento de continuidade e de redução de dano. E empresas de tecnologia também ajudam o setor de seguros a avançar, com soluções mais simples e eficientes.

Sinforme — O seguro cibernético já entrou no radar do setor de TI?
Regina — O tema de perda de informação, indisponibilidade de sistemas e impacto em clientes ficou central. Um incidente não é só técnico: afeta contrato e reputação. O seguro cibernético faz parte dessa discussão, junto com governança e LGPD.

Sinforme — O que as empresas de TI precisam observar com mais atenção?
Regina — Que risco não é só ataque. Pode ser erro humano, falha de processo ou dependência de fornecedor. E o tamanho do prejuízo depende do tempo de resposta e da capacidade de recuperar operação.

Sinforme — A senhora tem defendido o seguro como instrumento de gestão. Qual é a lógica?
Regina — Benefícios são parte da estabilidade da empresa. Em tecnologia, a rotatividade custa caro porque leva junto conhecimento e continuidade de entrega. Coberturas coletivas como odontológico, vida e funeral têm custo relativamente baixo por pessoa e entregam valor real em momentos críticos.

Sinforme — O empresário costuma olhar isso como custo. Como a senhora traduz essa decisão?
Regina — Como previsibilidade. O seguro organiza o risco e reduz o impacto financeiro quando algo acontece. A empresa não controla tudo, mas pode se preparar para sofrer menos dano e responder melhor.

Sinforme — Para o empresário, qual é o ponto de partida para tratar proteção como parte da estratégia do negócio?
Regina — Começa por entender que seguro entra como continuidade e governança, porque dados, pessoas e tempo de resposta definem o tamanho do dano. Na prática, isso vira decisão: vida, saúde e odontológico para dar estabilidade à equipe; proteção patrimonial e de frota para resguardar ativos; e seguro cibernético quando a operação envolve dados, sistemas críticos e responsabilidade perante clientes. TI convive com risco todos os dias; o seguro organiza resposta e dá previsibilidade.

A reforma tributária muda a lógica do negócio, não apenas o imposto, explica o contador

Gustavo Gualberto explica por que a nova tributação exige decisões antecipadas, redesenha cadeias de fornecedores e transforma o papel da contabilidade no Brasil

A reforma tributária não altera apenas alíquotas, regimes ou a forma de recolher impostos. Ela redefine, na prática, como as empresas se organizam, contratam, precificam e gerenciam caixa. É o que afirma o contador e especialista em planejamento tributário, Gustavo Gualberto. Ele tem acompanhado de perto a transição prevista entre 2026 e 2032. “A reforma tributária não é evento contábil. É uma mudança de engenharia operacional: cadeia, dado, preço e caixa”, explica o contador.

Nesta entrevista para o Sinforme, Gustavo Gualberto detalha como relações comerciais e decisões de precificação serão alteradas com a nova lógica de crédito tributário ao longo da cadeia. Ele explica os impactos do split payment sobre o fluxo de caixa das empresas e analisa os desafios específicos para optantes do Simples Nacional, especialmente prestadores de serviços inseridos em cadeias B2B.

O contador também aponta quais decisões precisam ser antecipadas já em 2026 — como o mapeamento de clientes e fornecedores, a revisão de custos e a leitura da posição da empresa na cadeia — para reduzir riscos e preservar competitividade durante a transição do novo sistema tributário.

Sinforme: Qual a principal mudança da reforma tributária para as empresas?

Gustavo Gualberto: A mudança central é o momento e a forma de organizar a tributação. É uma reforma que vai mexer com a gestão das empresas. Atualmente, em grande parte das empresas, a rotina é seguinte: emite a nota, fatura, apura no fechamento do mês, e paga depois. Na reforma, a lógica de crédito, a rastreabilidade da cadeia e o modelo de apuração passam a exigir uma leitura prévia do negócio: quem é o fornecedor? quem é o cliente? onde a empresa está na cadeia? Isso vira gestão porque impacta preço, contratação, margem e fluxo de caixa.

Sinforme: O que muda, na prática, na lógica de crédito com o IBS e a CBS em comparação ao sistema atual, e por que isso passa a influenciar decisões comerciais entre empresas?

Gustavo Gualberto: Estamos falando do crédito tributário no modelo do IBS e da CBS. A tendência do sistema é consolidar um modelo mais amplo de créditos ao longo da cadeia, e isso muda o comportamento de compra e venda entre empresas. O cliente passará a buscar o fornecedor também pela capacidade de gerar crédito.

Sinforme: A lógica de crédito do IBS e da CBS tende a pressionar empresas optantes do Simples Nacional a reverem seu enquadramento? Em que situações o Simples pode deixar de ser competitivo por não gerar crédito ao cliente?

Gustavo Gualberto: O ponto é menos “sair do Simples” como decisão automática e mais entender o incentivo econômico: se o cliente precisa tomar crédito, ele passa a preferir fornecedores que viabilizem esse crédito. Em cadeias B2B, esse efeito pode alterar a competitividade de prestadores de serviço e pequenos fornecedores, exigindo reprecificação e recontratação de estrutura tributária.

Sinforme: Isso deixa de ser apenas uma escolha tributária e passa a se tornar uma decisão comercial para as empresas?

Gustavo Gualberto: Vira. Porque, para alguns segmentos, o cliente pode dizer: “se você não me gera crédito, eu busco outro fornecedor”. A discussão deixa de ser só “quanto pago de imposto” e entra na estratégia de permanência em cadeias de fornecimento.

Sinforme: Quando a arrecadação e a apuração se tornam mais automatizadas, qual passa a ser o papel do contador e por que o modelo tradicional tende a se esgotar?

Gustavo Gualberto: Porque boa parte da contabilidade brasileira foi organizada por burocracia declaratória e apuração posterior. A reforma aumenta o peso da qualidade do dado fiscal, do documento eletrônico e da integração com sistemas de arrecadação e compensação. O contador ganha outra função: leitura de cadeia, modelagem de cenários, suporte de precificação e adaptação anual durante a transição.

Sinforme: O senhor associa essa mudança ao avanço de mecanismos como o split payment e ao uso de novas infraestruturas de pagamento, como o Drex. Onde essas ferramentas entram, na prática, na nova lógica de arrecadação?

Gustavo Gualberto: O que está no horizonte é um desenho em que o recolhimento fica mais “acoplado” ao fluxo financeiro e ao documento fiscal, com capacidade de automatização. O ponto prático para a empresa é: o imposto deixa de ser um valor que “fica rodando” no caixa até o mês seguinte. O sistema caminha para reduzir esse espaço de postergação.

Sinforme: Para uma empresa optante do Simples Nacional, o que muda efetivamente em 2026 com o início da transição da reforma??

Gustavo Gualberto: 2026 é abertura de transição. O efeito mais relevante para a empresa do Simples é preparar decisão operacional e comercial para o passo seguinte: mapear clientes e fornecedores, identificar cadeias que exigem crédito e organizar custos e precificação para 2027 em diante.

Sinforme: Que tipo de preparação prática uma empresa do Simples deveria fazer ao longo de 2026 para chegar a 2027 com menos risco?

Gustavo Gualberto: De janeiro a agosto: controle de custos e despesas; mapeamento de clientes e fornecedores; leitura de cadeia (quem compra de você e para quê); e simulações de preço considerando cenários de crédito. A decisão operacional para o ano seguinte tende a ser tomada com base nessa leitura.

Sinforme: E no caso de profissionais que atuam como PJ prestando serviço para uma única empresa, o que muda com o novo modelo de crédito?

Gustavo Gualberto: A conversa precisa acontecer com o cliente. Se o cliente está no meio de cadeia e precisa tomar crédito, ele vai pressionar o fornecedor (o PJ) a operar de modo que viabilize esse crédito. Se o cliente está no fim da cadeia (consumo final), a pressão diminui. É uma mudança com potencial de alterar relações de trabalho travestidas de contratação PJ, porque crédito vira variável econômica na tomada de serviços.

Sinforme: E pode impactar o caixa da empresa?

Com a reforma tributária, especialmente com mecanismos como split payment, a lógica muda. O imposto passa a ser recolhido no momento da transação e “intervalo financeiro” desaparece. O valor do tributo não vai mais integrar o caixa disponível da empresa. Por isso, as empresas que tratam imposto como caixa de curto prazo vão precisar se adaptar. Se o recolhimento ficar mais acoplado à transação, esse “giro” some. O efeito é fluxo de caixa mais pressionado e necessidade de gestão financeira mais disciplinada.

Sinforme: E sobre penalidades?

Gustavo Gualberto: Penalidades e obrigações acessórias ganham relevância porque a base do sistema é documento eletrônico e consistência de dados. O desenho vai se completar por regulamentações. A transição é longa, e a empresa vai recalibrar preço e operação ano a ano até o sistema estabilizar.

Sinforme: Em uma frase, qual é o principal alerta que o empresário deveria reter diante dessa transição?

Gustavo Gualberto: Que reforma tributária não é evento contábil. É uma mudança de engenharia operacional: cadeia, dado, preço e caixa.

Ping-pong | Governança, tecnologia e desenvolvimento no DF

Carlos Jacobino, presidente do Sinfor-DF

1 – Como o senhor avalia o estágio atual da transformação digital no Distrito Federal?
O Distrito Federal avançou em infraestrutura e em algumas frentes de digitalização de serviços, mas ainda opera sem uma governança própria para a transformação digital. Atualmente, essa agenda está vinculada à Secretaria de Economia, o que cria limitações operacionais e entraves burocráticos. A tecnologia precisa ser tratada como política estruturante de Estado, com coordenação dedicada, visão de longo prazo e capacidade de articulação entre áreas.

2 – Por que a ausência dessa estrutura específica é um problema para o DF?
Porque o DF é a única unidade da federação que não conta com um órgão dedicado exclusivamente à transformação digital. Essa ausência fragmenta decisões, dificulta a coordenação entre secretarias e reduz a atratividade do território para projetos inovadores. Sem uma instância própria, a tecnologia perde centralidade e velocidade, justamente em um ambiente que concentra grandes demandantes públicos e decisões estratégicas.

3 – É nesse contexto que surge a proposta do Conselho de Transformação Digital do DF?
Exatamente. O Sinfor-DF propôs o Conselho de Transformação Digital pensando em um espaço de coordenação estratégica, capaz de alinhar prioridades, integrar políticas públicas e estabelecer diretrizes claras para o uso da tecnologia no Distrito Federal. Ele permite diálogo estruturado entre governo, setor produtivo, academia e sociedade, reduzindo sobreposições e aumentando a efetividade das iniciativas.

4 – O Sinfor-DF também propõe a criação de uma empresa pública de tecnologia da informação? Qual seria o papel dela?
A empresa pública de TI complementa essa governança. Ela cria capacidade operacional permanente para executar a estratégia definida, profissionalizar a gestão tecnológica, reduzir dependências fragmentadas e dar escala às soluções digitais. Sem uma estrutura desse tipo, o Estado tende a operar de forma reativa, com contratos dispersos e pouca continuidade institucional.

5 – Como essa proposta dialoga com a melhoria dos serviços públicos ao cidadão?
Uma governança clara e uma estrutura dedicada permitem acelerar projetos voltados ao cidadão, especialmente em áreas como saúde, educação, segurança e atendimento digital. A ausência desse arranjo dificulta a atração de soluções inovadoras e a implementação de tecnologias mais eficientes. Com coordenação e capacidade técnica, o Estado entrega serviços mais integrados, confiáveis e acessíveis.

6 – O senhor tem defendido que o setor público é o motor do desenvolvimento tecnológico. Como isso se conecta a essa agenda?
O setor público, especialmente no DF, tem papel decisivo na organização do mercado de tecnologia. Quando o Estado planeja, compra e executa com visão estratégica, ele cria escala, induz inovação e fortalece empresas locais. Sem governança, esse potencial se perde. Por isso, estrutura institucional e compras públicas caminham juntas.

7 – O Sinfor-DF aponta três pilares estruturais para o fortalecimento do setor. Quais são eles?
O fortalecimento do ecossistema de TI no DF passa por segurança jurídica, funding adequado e compras públicas inovadoras. Segurança jurídica dá previsibilidade ao investimento. Funding cria condições para crescimento e inovação. Compras públicas, quando bem desenhadas, induzem desenvolvimento tecnológico e fortalecem empresas nacionais, especialmente em setores estratégicos.

8 – As compras públicas seguem sendo um ponto sensível. O que precisa evoluir?
É preciso avançar para modelos de contratação que valorizem qualidade técnica, segurança, governança e capacidade de evolução das soluções ao longo do tempo. Compras públicas não podem ser apenas transacionais; elas precisam funcionar como instrumento de política de desenvolvimento tecnológico, especialmente em um território com o peso institucional do DF.

9 – Como essa agenda se relaciona com a definição de uma vocação tecnológica para Brasília?
Governança é pré-condição para vocação. O DF tem potencial claro para se tornar referência em GovTech, desenvolvendo soluções para o setor público. Mas isso exige foco, coordenação e estrutura. Sem esses elementos, a vocação permanece apenas como discurso, não como estratégia de desenvolvimento.

10 – O Sinfor-DF também tem atuado no acompanhamento da agenda regulatória e tributária. Por quê?
Porque decisões regulatórias e tributárias impactam diretamente a capacidade das empresas de investir, inovar e crescer. A criação de comissões para acompanhar temas como a tributação de dividendos reflete a necessidade de antecipar cenários e oferecer leitura qualificada ao setor, especialmente em um ambiente de incerteza.

11 – Qual é a visão de futuro do Sinfor-DF para o Distrito Federal?
Nossa visão é construir uma governança em rede que permita ao Distrito Federal assumir protagonismo tecnológico. Queremos um Estado com coordenação clara da transformação digital, capacidade operacional própria e diálogo permanente com o ecossistema. Isso cria as condições para que Brasília se consolide como um centro de referência em soluções tecnológicas voltadas a desafios reais do setor público e da sociedade.

CIIA pretende impulsionar inteligência artificial no Distrito Federal em 2026

O Centro Integrado de Inteligência Artificial do Distrito Federal dá acesso a 160 cursos gratuitos em 9 especializações pela plataforma Grow with Google

O coordenador do Centro Integrado de Inteligência Artificial (CIIA), Ricardo Sampaio, afirma que o CIIA-DF foi criado para pensar inteligência artificial como política pública. Para o início de 2026, a meta é entregar um planejamento com estratégias definidas para o desenvolvimento de soluções, voltada para à adoção estruturada de IA, com orientação sobre os investimentos do governo, a atuação da indústria e a formação de competências em áreas prioritárias de serviços públicos.

A atuação do CIIA se estrutura em três frentes: um sistema de governança baseado na tríplice hélice — governo, setor produtivo e academia —, quatro eixos operacionais que organizam pesquisa, inovação, desafios e capacitação, e um laboratório multiusuário que coloca infraestrutura avançada de IA à disposição do Distrito Federal.

Na entrevista a seguir, o coordenador do CIIA, Ricardo Sampaio, detalha como esse desenho cria demanda concreta para a indústria de tecnologia e amplia a capacidade do governo de contratar soluções inovadoras. Mas ressalta que, uma das principais preocupações, é com a capacitação da população e dos trabalhadores.

“Estamos capacitando tanto startups quanto qualquer funcionário da indústria que queira trabalhar com tecnologia. Estamos com 160 cursos em 9 especializações, em um parceria com Google. São cursos gratuitos pelo CIIA, porque esses cursos custam mais de US$ 200”, explica Ricardo Sampaio.

Sinforme — Para começar, o que é o CIIA e qual é o seu papel dentro do governo?
Ricardo Sampaio — O CIIA é o Centro Integrado de Inteligência Artificial do Distrito Federal. Ele nasce com o objetivo de ser o centro do governo para pensar, de forma estratégica, as demandas relacionadas à inteligência artificial. Quando falamos de IA, não estamos falando apenas de ferramentas como o ChatGPT. Estamos falando de automação de serviços, análise de dados em larga escala, otimização de processos e de praticamente tudo o que hoje atravessa a tecnologia da informação. A IA se tornou uma tecnologia de uso geral, presente inclusive em camadas de infraestrutura e hardware.

Sinforme — E por que um centro de IA dentro do governo?
Ricardo Sampaio — Historicamente, os centros de inteligência artificial no Brasil e no mundo se concentraram na academia ou em grandes empresas de tecnologia, as big techs, que investem fortemente em pesquisa. O CIIA se posiciona de forma complementar, como um centro de pesquisa aplicada do governo. Em Brasília, isso tem um peso especial, porque o governo é o maior comprador do país e o principal indutor de demanda tecnológica. As soluções desenvolvidas para secretarias e órgãos públicos inevitavelmente geram demanda para a indústria, que é quem faz a sustentação, a evolução e a escala dessas soluções.

Sinforme — Muito se fala da tríplice hélice. Como ela opera na prática no DF?
Ricardo Sampaio — A tríplice hélice, que é a reunião do governo, academia e setor produtivo, aparece em praticamente todos os ecossistemas tecnológicos maduros. O Vale do Silício é um exemplo clássico: universidades fortes formam pessoas e conhecimento, o governo investe em pesquisa e cria ambiente regulatório, e o setor produtivo transforma isso em soluções. No DF, o desenho é semelhante, mas com uma característica própria: o peso do governo como demandante.

Sinforme — Como isso se traduz nas ações do CIIA?
Ricardo Sampaio — O CIIA capta recursos públicos e articula a academia para desenvolver soluções de ponta para problemas reais do governo. Essas soluções são entregues às secretarias como provas de conceito, as POCs. A partir daí, entra a indústria, que tem a capacidade de dar continuidade, suporte, melhoria e escala. É nesse ponto que surgem oportunidades concretas para empresas de tecnologia.

Sinforme — Como o CIIA estrutura essa operação no dia a dia?
Ricardo Sampaio — Trabalhamos a partir de quatro eixos. O primeiro é o eixo de pesquisa, voltado ao desenvolvimento de soluções aplicadas a problemas concretos apresentados pelas secretarias. O segundo é o eixo de inovação e empreendedorismo, que envolve a aproximação com startups e empresas, com encontros periódicos e troca constante. O terceiro é o eixo de desafios, em que problemas são lançados para que a sociedade e o ecossistema proponham soluções, em modelos próximos a hackathons ou crowdsourcing. O quarto eixo é o de treinamento e capacitação, que prepara pessoas para desenvolver, contratar e utilizar essas tecnologias.

Sinforme — Quais áreas concentram as primeiras iniciativas?
Ricardo Sampaio — Começamos por áreas com grande impacto social e operacional, como saúde, educação, mobilidade urbana, agricultura e políticas para mulheres. Há projetos em discussão com a Secretaria de Mobilidade, a Secretaria da Mulher, a Secretaria de Agricultura e a Secretaria de Saúde, sempre partindo de dores claramente identificadas.

Sinforme — De onde surgem essas demandas?
Ricardo Sampaio — Elas vêm diretamente do governo. Diferente do mercado privado, onde muitas vezes se tenta vender uma solução que talvez encontre um problema, aqui partimos da dor concreta. Na saúde, por exemplo, a grande questão é o complexo regulador, a fila. Como tornar a marcação de consultas e exames mais eficiente? Quando isso melhora, há impacto direto na contratação de serviços, inclusive da indústria que presta apoio à área da saúde.

Sinforme — Pode dar exemplos de soluções em desenvolvimento?
Ricardo Sampaio — Há propostas em mobilidade urbana envolvendo o uso de câmeras em ônibus para identificação de pessoas em situação de busca, projetos com drones para logística e entregas, soluções de mapeamento da produção agrícola local para abastecimento da rede pública de ensino, além de propostas em discussão para atendimento a mulheres em situação de risco por meio de sistemas de conversação em tempo real.

Sinforme — Como entra o Contrato Público para Solução Inovadora (CPSI)?
Ricardo Sampaio — Quando entregamos uma POC, ela já vem preparada para contratação via CPSI, prevista no Marco Legal das Startups. É uma modalidade que aceita risco e permite contratos de até R$ 1,4 milhão para dar continuidade à solução. No nível federal, já é utilizada por órgãos como Petrobras e CNJ. No DF, ainda é pouco explorada. O papel do CIIA é dar segurança técnica e institucional para que os gestores públicos utilizem esse instrumento, o que abre oportunidades claras para a indústria.

Sinforme — Como o CIIA trabalha o letramento e a capacitação em IA?
Ricardo Sampaio — A capacitação é transversal a tudo. Trabalhamos com diferentes públicos: estudantes do ensino médio e universitário, gestores públicos e profissionais da indústria. Hoje, oferecemos acesso gratuito a mais de 160 cursos por meio de licenças educacionais e nove especializações com certificação. Também há capacitações presenciais em parceria com a Escola de Governo. Já ultrapassamos a marca de mil pessoas capacitadas no DF.

Sinforme — Como o interessado acessa essas formações?
Ricardo Sampaio — Pelo site do CIIA ou pela nossa comunidade no Discord. A ideia é manter esse acesso aberto, justamente para ampliar a base de competências do ecossistema local.

Sinforme — Qual é o papel do laboratório dentro do CIIA?
Ricardo Sampaio — O Laboratório Multiusuário de Inteligência Artificial, o LIA, é a terceira perna dessa estrutura. A ideia é chegar, até o fim de 2026, a um parque com mais de R$ 8 milhões em infraestrutura, especialmente GPUs de alto desempenho, fundamentais para o treinamento de modelos de IA. Ao disponibilizar essa infraestrutura em modelo colaborativo, tornamos viáveis projetos que seriam economicamente inviáveis para empresas ou instituições isoladas.

Sinforme — Quem pode usar esse laboratório?
Ricardo Sampaio — O laboratório atende tanto demandas do governo quanto demandas locais do ecossistema. Diferente de estruturas fechadas, ele existe para desenvolver competências e soluções no DF, com impacto direto sobre serviços públicos e sobre a indústria.

Sinforme — Como o senhor resume a lógica do CIIA?
Ricardo Sampaio — O CIIA se organiza a partir de uma tríade: governança, quatro eixos operacionais e laboratório. A governança pensa o todo, como melhorar serviços públicos, formar pessoas, atender à indústria e garantir acesso à tecnologia para quem tem e para quem não tem recursos. A inteligência artificial precisa servir à população como um todo. Esse é o princípio que orienta todas as decisões.

Da engenharia das urnas ao compliance com IA: as apostas de quem estruturou tecnologia no DF

Nesta entrevista, Avaldir Oliveira conta como construiu das mais importantes empresas de TI do Brasil e fala da sua aposta para o futuro

A trajetória de Avaldir Oliveira se confunde com a consolidação da tecnologia no país. Na década de 1990, ele saiu de uma sala de 27 m² para construir uma das maiores e mais importantes empresas brasileiras de tecnologia da informação do Brasília, a CTIS Tecnologia.

Atualmente, aos 74 anos, com a CTIS vendida e uma trajetória marcada por disciplina e expansão nacional, ele percorre um novo caminho: investir em soluções de compliance com inteligência artificial, CRM para grandes operações, acessibilidade digital em Libras e educação gratuita com alto alcance social.

“Por décadas tive disciplina para trabalhar 12 horas por dia. Eram 8 horas no operacional e 4 horas no planejamento. Mas resolvi não me aposentar. Hoje invisto em 4 startups que resolvem problemas reais”, conta o empresário-investidor.

Acompanhe os principais trechos da conversa com o Sinforme:

 

Sinforme — A CTIS surgiu em um momento em que não se fala ainda em TI? O que levou o senhor e entrar em um território tão desconhecido e criar a CTIS?
Avaldir Oliveira — Minha formação é em processamento de dados, como se chamava na época. Em 1983 eu chefiava o departamento de informática da companhia energética de Brasília. Mas eu sentia que podia contribuir mais e não me encaixava em uma rotina acomodada de serviço público. Em 1985, aos 31 anos, casado e com três filhas, abri a CTIS com um sócio, uma secretária e um office boy, em uma sala de 27 metros quadrados. Fazíamos consultoria, treinamento e, em seguida, passamos a desenvolver software.

Sinforme — O início coincidiu com o período de hiperinflação. Como foi atravessar essa fase?
Avaldir — Foi um exercício diário de sobrevivência. Juros altíssimos, inflação corroendo margens, contratos perdendo valor de um mês para o outro. Houve fase de “carro zero para carro usado”, como costumo dizer. A empresa se manteve em pé com persistência. Mas tínhamos também uma gestão rigorosa de caixa e relacionamento próximo com clientes.

Sinforme — Qual episódio marcou o ponto de virada da CTIS?
Avaldir — Em 1987 ou 1988, tínhamos um contrato pequeno com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que estava perto do fim. Em um sábado, recebi ligação de um diretor do Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo um trabalho urgente. Mas era fim de semana e nenhuma empresa estava aberta. Fomos com um desktop inteiro debaixo do braço, torre, monitor e teclado, e entregamos o serviço. Esse trabalho nos ajudou a pavimentar a entrar no STF. Pulamos de cerca de dez para cem pessoas e, na eleição de 1989, chegamos a mobilizar aproximadamente 400 profissionais entre analistas e suporte. Foi o momento em que o tribunal estruturou de vez a área de tecnologia, e a CTIS fez parte desse arranque.

Sinforme — A empresa se tornou uma referência nacional. Como se deu essa expansão?
Avaldir — Entre o fim dos anos 1990 e o início dos anos 2000, passamos a atuar com contratos mais complexos e presença em quase todas as capitais. Entramos forte em varejo com soluções de CRM, captura de notas fiscais, cadastros, campanhas e relacionamento. Em 2013, a CTIS já era uma empresa de tecnologia de capital nacional relevante, com atuação em software e serviços. Em 2014, vendi o controle para um grupo chileno, que realizava uma série de aquisições no Brasil, incluindo a CTIS. Permaneci como executivo até 2018, acompanhando integração, governança e consolidação da operação.

“Saí do operacional. Hoje escolho problemas grandes e times que podem resolvê-los”

Sinforme — Qual é a sua atuação hoje, depois da venda e da saída da gestão direta?
Avaldir — Atuo como investidor-anjo e conselheiro. Gosto de escolher segmentos com dores claras, modelo escalável e times com capacidade real de execução. Hoje tenho participação em quatro startups que seguem essa lógica.

Sinforme — Quais são essas startups e o que cada uma entrega?
Avaldir —

  1. GetCompliance – Plataforma de conformidade e segurança da informação com uso intensivo de inteligência artificial. Ela coleta e organiza comunicações corporativas, como e-mails e WhatsApp corporativo, além de documentos e anexos, em um repositório de auditoria. A IA busca indícios de risco: assédio moral ou sexual, fraude em notas fiscais, práticas anticoncorrenciais, racismo, corrupção e outras condutas sensíveis. Cada tipo de alerta dispara um fluxo específico, que pode envolver Jurídico, RH, Financeiro ou a área de Compliance. A tecnologia reduz perdas e ainda cria atenuantes perante órgãos de controle se algum episódio ocorrer. Hoje temos algo em torno de cinco a seis clientes ativos e um funil com cerca de 30 prospectos, começando por Brasília e expandindo via parceiros.
  2. Inc (CRM & campanhas) – Solução de CRM e campanhas para shopping centers e redes de supermercados. Faz gestão de cadastros, captura de notas, cupons, sorteios e campanhas de relacionamento. Atende, entre outros, Brasília Shopping e Terraço Shopping, e há mais de dez shoppings de grande porte em fase de negociação ou contratação.
  3. Libera – Plataforma de acessibilidade digital em Libras. É um widget que traduz conteúdo de sites para Libras, ajusta contraste e tamanho de fonte e oferece avatar ou intérprete para vídeos. Também atende centrais de atendimento via vídeo, acionando intérpretes sob demanda, em um modelo próximo a um “Uber” de Libras. Já são cerca de 300 clientes, e um dos casos é o Bradesco, que usa a tecnologia em vídeos de treinamento. A tendência regulatória caminha para exigência de acessibilidade e aplicação de penalidades, o que torna esse mercado bastante promissor.
  4. Passei.ai – Preparatório gratuito para o Enem com apoio de IA. Carregamos 12 anos de provas e dezenas de milhares de questões. A plataforma monta simulados mensais, corrige automaticamente e cria trilhas personalizadas com videoaulas curtas, de cerca de cinco minutos, por habilidade. Há ranking e possibilidade de parcerias com universidades, que podem oferecer bolsas e benefícios para os alunos com melhor desempenho. O modelo de negócios se baseia em publicidade, com banners e vídeos curtos, e em acordos com instituições de ensino.

Sinforme — Por que começar justamente por uma solução de compliance?
Avaldir — Porque ética, dados e reputação caminham juntos. Uma empresa cliente sofreu uma fraude de aproximadamente R$ 5 milhões ao longo de três anos. Com uma plataforma estruturada de governança, a chance de detectar o problema cedo e reduzir ou até eliminar esse prejuízo seria muito maior. Compliance desenhado com tecnologia tende a se pagar, pelo que evita de perdas financeiras, crises e sanções regulatórias.

Sinforme — Como funciona o monitoramento de mensagens, especialmente no WhatsApp?
Avaldir — Trabalhamos apenas com WhatsApp corporativo, dentro de uma política clara de uso e com consentimento formal. O objetivo é governança, não vigilância. A empresa define quais canais e quais tipos de mensagens entram no repositório de auditoria, da mesma forma que faz há anos com e-mails corporativos. A inteligência artificial não substitui o julgamento humano. Ela identifica padrões e indícios e encaminha para as equipes responsáveis decidirem.

Sinforme — Que papel a inteligência artificial passou a ter nessa nova fase?
Avaldir — A inteligência artificial está presente nas quatro teses. No GetCompliance, filtra milhões de sinais, cruza variáveis e ajuda a priorizar riscos relevantes. No Passei.ai, gera simulados, corrige provas, identifica defasagens e monta trilhas personalizadas de estudo. Na Libera, treina modelos para reconhecer centenas de milhares de sinais de Libras e tornar a interação mais fluida. Na Inc, organiza dados de comportamento de consumo e melhora a segmentação de campanhas. A IA amplia a capacidade dos times. Não substitui gente preparada; potencializa.

Sinforme — Que conselhos senhor daria a quem está começando a empreender em tecnologia hoje?
Avaldir — Trabalho consistente vence improviso. Recomendo uma fase longa de 12 horas por dia: oito horas no operacional e quatro horas em planejamento, análise e construção de futuro. Quando se soma essa disciplina por 20 anos, o resultado é um volume de horas dedicadas muito superior ao da média dos concorrentes. Somo a isso uma forma de olhar o mundo: tudo funciona como vitrine de ideias e problemas que podem ser resolvidos. Valores claros e rede de relacionamentos bem cuidada fortalecem a trajetória, porque ninguém cresce sozinho. E existe a vida pessoal: presença qualitativa com a família, cuidado com saúde. Faço academia de madrugada e jogo tênis cinco vezes por semana. Disciplina cria base para atravessar ciclos bons e ruins.

Sinforme — Como o senhor enxerga hoje o mercado de tecnologia no Distrito Federal?
Avaldir — O DF tem um ecossistema forte, com empresas experientes em projetos complexos, especialmente na área pública. Essa trajetória criou competências importantes. O movimento que enxergo para os próximos anos está na ampliação do peso do setor privado, com serviços de inteligência artificial, governança, segurança da informação e soluções escaláveis para fora de Brasília. Quem conseguir posicionar times, produtos e comercial nessa direção tende a ganhar escala.

Sinforme — O que fica depois de quatro décadas de atuação em tecnologia?
Avaldir — Não existe fórmula única. O que se observa são ingredientes recorrentes: trabalho consistente, planejamento, ética, resiliência, capacidade de ler o timing e respeito às pessoas. Esse respeito inclui quem saiu da empresa para empreender e continua contribuindo para o setor. Sempre digo que, enquanto a pessoa está na empresa, a empresa ocupa um lugar importante no coração dela; quando ela sai, uma empresa nasce no coração dessa pessoa. Esse efeito multiplicador ajuda a construir um ecossistema.

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