A reforma tributária muda a lógica do negócio, não apenas o imposto, explica o contador

Gustavo Gualberto explica por que a nova tributação exige decisões antecipadas, redesenha cadeias de fornecedores e transforma o papel da contabilidade no Brasil

A reforma tributária não altera apenas alíquotas, regimes ou a forma de recolher impostos. Ela redefine, na prática, como as empresas se organizam, contratam, precificam e gerenciam caixa. É o que afirma o contador e especialista em planejamento tributário, Gustavo Gualberto. Ele tem acompanhado de perto a transição prevista entre 2026 e 2032. “A reforma tributária não é evento contábil. É uma mudança de engenharia operacional: cadeia, dado, preço e caixa”, explica o contador.

Nesta entrevista para o Sinforme, Gustavo Gualberto detalha como relações comerciais e decisões de precificação serão alteradas com a nova lógica de crédito tributário ao longo da cadeia. Ele explica os impactos do split payment sobre o fluxo de caixa das empresas e analisa os desafios específicos para optantes do Simples Nacional, especialmente prestadores de serviços inseridos em cadeias B2B.

O contador também aponta quais decisões precisam ser antecipadas já em 2026 — como o mapeamento de clientes e fornecedores, a revisão de custos e a leitura da posição da empresa na cadeia — para reduzir riscos e preservar competitividade durante a transição do novo sistema tributário.

Sinforme: Qual a principal mudança da reforma tributária para as empresas?

Gustavo Gualberto: A mudança central é o momento e a forma de organizar a tributação. É uma reforma que vai mexer com a gestão das empresas. Atualmente, em grande parte das empresas, a rotina é seguinte: emite a nota, fatura, apura no fechamento do mês, e paga depois. Na reforma, a lógica de crédito, a rastreabilidade da cadeia e o modelo de apuração passam a exigir uma leitura prévia do negócio: quem é o fornecedor? quem é o cliente? onde a empresa está na cadeia? Isso vira gestão porque impacta preço, contratação, margem e fluxo de caixa.

Sinforme: O que muda, na prática, na lógica de crédito com o IBS e a CBS em comparação ao sistema atual, e por que isso passa a influenciar decisões comerciais entre empresas?

Gustavo Gualberto: Estamos falando do crédito tributário no modelo do IBS e da CBS. A tendência do sistema é consolidar um modelo mais amplo de créditos ao longo da cadeia, e isso muda o comportamento de compra e venda entre empresas. O cliente passará a buscar o fornecedor também pela capacidade de gerar crédito.

Sinforme: A lógica de crédito do IBS e da CBS tende a pressionar empresas optantes do Simples Nacional a reverem seu enquadramento? Em que situações o Simples pode deixar de ser competitivo por não gerar crédito ao cliente?

Gustavo Gualberto: O ponto é menos “sair do Simples” como decisão automática e mais entender o incentivo econômico: se o cliente precisa tomar crédito, ele passa a preferir fornecedores que viabilizem esse crédito. Em cadeias B2B, esse efeito pode alterar a competitividade de prestadores de serviço e pequenos fornecedores, exigindo reprecificação e recontratação de estrutura tributária.

Sinforme: Isso deixa de ser apenas uma escolha tributária e passa a se tornar uma decisão comercial para as empresas?

Gustavo Gualberto: Vira. Porque, para alguns segmentos, o cliente pode dizer: “se você não me gera crédito, eu busco outro fornecedor”. A discussão deixa de ser só “quanto pago de imposto” e entra na estratégia de permanência em cadeias de fornecimento.

Sinforme: Quando a arrecadação e a apuração se tornam mais automatizadas, qual passa a ser o papel do contador e por que o modelo tradicional tende a se esgotar?

Gustavo Gualberto: Porque boa parte da contabilidade brasileira foi organizada por burocracia declaratória e apuração posterior. A reforma aumenta o peso da qualidade do dado fiscal, do documento eletrônico e da integração com sistemas de arrecadação e compensação. O contador ganha outra função: leitura de cadeia, modelagem de cenários, suporte de precificação e adaptação anual durante a transição.

Sinforme: O senhor associa essa mudança ao avanço de mecanismos como o split payment e ao uso de novas infraestruturas de pagamento, como o Drex. Onde essas ferramentas entram, na prática, na nova lógica de arrecadação?

Gustavo Gualberto: O que está no horizonte é um desenho em que o recolhimento fica mais “acoplado” ao fluxo financeiro e ao documento fiscal, com capacidade de automatização. O ponto prático para a empresa é: o imposto deixa de ser um valor que “fica rodando” no caixa até o mês seguinte. O sistema caminha para reduzir esse espaço de postergação.

Sinforme: Para uma empresa optante do Simples Nacional, o que muda efetivamente em 2026 com o início da transição da reforma??

Gustavo Gualberto: 2026 é abertura de transição. O efeito mais relevante para a empresa do Simples é preparar decisão operacional e comercial para o passo seguinte: mapear clientes e fornecedores, identificar cadeias que exigem crédito e organizar custos e precificação para 2027 em diante.

Sinforme: Que tipo de preparação prática uma empresa do Simples deveria fazer ao longo de 2026 para chegar a 2027 com menos risco?

Gustavo Gualberto: De janeiro a agosto: controle de custos e despesas; mapeamento de clientes e fornecedores; leitura de cadeia (quem compra de você e para quê); e simulações de preço considerando cenários de crédito. A decisão operacional para o ano seguinte tende a ser tomada com base nessa leitura.

Sinforme: E no caso de profissionais que atuam como PJ prestando serviço para uma única empresa, o que muda com o novo modelo de crédito?

Gustavo Gualberto: A conversa precisa acontecer com o cliente. Se o cliente está no meio de cadeia e precisa tomar crédito, ele vai pressionar o fornecedor (o PJ) a operar de modo que viabilize esse crédito. Se o cliente está no fim da cadeia (consumo final), a pressão diminui. É uma mudança com potencial de alterar relações de trabalho travestidas de contratação PJ, porque crédito vira variável econômica na tomada de serviços.

Sinforme: E pode impactar o caixa da empresa?

Com a reforma tributária, especialmente com mecanismos como split payment, a lógica muda. O imposto passa a ser recolhido no momento da transação e “intervalo financeiro” desaparece. O valor do tributo não vai mais integrar o caixa disponível da empresa. Por isso, as empresas que tratam imposto como caixa de curto prazo vão precisar se adaptar. Se o recolhimento ficar mais acoplado à transação, esse “giro” some. O efeito é fluxo de caixa mais pressionado e necessidade de gestão financeira mais disciplinada.

Sinforme: E sobre penalidades?

Gustavo Gualberto: Penalidades e obrigações acessórias ganham relevância porque a base do sistema é documento eletrônico e consistência de dados. O desenho vai se completar por regulamentações. A transição é longa, e a empresa vai recalibrar preço e operação ano a ano até o sistema estabilizar.

Sinforme: Em uma frase, qual é o principal alerta que o empresário deveria reter diante dessa transição?

Gustavo Gualberto: Que reforma tributária não é evento contábil. É uma mudança de engenharia operacional: cadeia, dado, preço e caixa.

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