Segunda, 18 de Dezembro de 2017

Dinamizar o empreendedorismo em Brasília

A Endeavor – organização sem fins lucrativos voltada ao desenvolvimento do empreendedorismo - divulgou na semana que passou, pesquisa que baixa a autoestima dos empresários e investidores brasilienses. A atualização do Índice de Cidades Empreendedoras (ICE) aponta que Brasília caiu mais uma posição em relação ao ano anterior e ocupa o 17º lugar em relação a 32 cidades brasileiras mapeadas sob o aspecto de negócios. O resultado é mais um alerta para a necessidade de incentivar a iniciativa privada na Capital Federal e Entorno. 

O índice leva em consideração sete indicadores: ambiente regulatório, infraestrutura, mercado, acesso a capital, inovação, capital humano e cultura empreendedora. De acordo com o diretor de pesquisa da Endeavor, Pedro Lipkin, "esta é a combinação de fatores que forma o ecossistema empreendedor”.

Surpreendentemente, Brasília esteve bem colocada, entre as primeiras dez posições, em quase todos os quesitos. Segundo a pesquisa, a burocracia na Capital da República é amenizada pela ausência dos entraves impostos pelas regras de estados e municípios – uma vez que o DF acumula as funções e, assim, consegue eliminar algumas barreiras.

Também fomos beneficiados pela localização central, facilidade de acesso e mobilidade urbana – lembrando que fomos comparados a São Paulo e Rio de Janeiro, portanto, sim, estamos bem em tempo de deslocamento e fluidez de trânsito.

Grande parte do resultado positivo, no entanto, foi motivado pelos altos salários. O Produto Interno Bruto per capita e total nos coloca em sétima posição – concorrendo apenas com grandes centros e indústrias de alto desempenho.

Pode parecer que nossa cidade está bem, mas apenas quando levada em conta a massa salarial do funcionalismo público. Ou seja, nós incentivamos e buscamos o inchaço na folha de pagamentos dos governos.  Essa situação é insustentável e chegou ao limite. 

Quando comparados os indicadores ligados aos negócios, infraestrutura e inovação, Brasília está aquém de muitas outras cidades. Foram exatamente esses quesitos que derrubaram a colocação da Capital do País frente às demais cidades estudadas. A cultura empreendedora nos colocou em última posição entre as 32 cidades.

Aspectos como respeito ao empreendedor, cobertura midiática dos casos de sucesso nos negócios, percepção positiva sobre a relação entre empresários e funcionários, incentivo familiar ao empreendedor, identificação pela população de que o desenvolvimento do país depende das atividades empreendedoras, percepção do empreendedorismo como opção de carreira, relacionamento com pessoas que investem na iniciativa privada e imagem complexa da possibilidade de investir no setor privado foram pessimamente avaliadas pela organização de pesquisa.

Os pontos negativos foram também atribuídos ao perfil do brasiliense, em índices como proatividade, criatividade, visão e sonho audacioso. Daí o desespero e revolta, especialmente dos jovens, quando o Congresso Nacional ameaça alterações de qualquer ordem nas regras e disponibilidade dos concursos públicos.

A situação não é nova, mas preocupante. A cultura de funcionalismo público na Capital Federal tornou-se um grande Eldorado e está se espalhando pelo país. Há notícias de caravanas e caravanas que se organizam para prestar provas seletivas para o Governo Federal ou para o Governo do Distrito Federal por conta dos salários, carreira e estabilidade.

A briga é desigual, pois o grande barato do empreendedorismo é a sua constante renovação, dinamismo e adrenalina de lançar um novo produto ou serviço. A possibilidade de mudar vidas e realidades é algo arriscado, mas muito gratificante. São, no entanto, características que devem ser trabalhadas na formação do ser. Nesse sentido, somos bem incrédulos.

A própria Endeavor divulgou que apenas 25% das famílias dizem que apoiariam uma pessoa que decidisse empreender. A sociedade e os governos não têm feito grande esforço para mudar esse perfil de jovem, nenhum mérito pela vocação natural de negócios em Brasília para transformar a Economia da nossa cidade ou desenvolver os setores que geram empregos, renda e desafogam a máquina pública.

A dependência dos governos, da mesada que é o Fundo Constitucional, é substancial e nós não nos responsabilizamos pela melhoria do ambiente de empreendedorismo. O ambiente econômico de Brasília deveria estar atraindo para cá, empresas e indústrias de Turismo, de Serviços, de Tecnologia. Não há um planejamento realmente estratégico para o desenvolvimento econômico da Capital Federal.

Com a realização da mostra Brasília + TI, entre 5 e 7 deste mês, na Câmara Legislativa, teremos a chance de trazer esse tema para pauta de toda a cadeia produtiva. Será nossa tentativa concreta de mobilizar desde a academia até os parlamentares e investidores para uma agenda digital eficaz e eficiente na cidade. Na verdade, o evento é o apelo que fazemos pelo mérito que o setor de TIC e da Economia do Conhecimento tem de modificar esse cenário de crise de forma definitiva.

 

Brasília e os brasilienses têm todas as condições de desenvolver pela competência. Como a pesquisa da Endeavor mostrou, temos ambiente favorável, infraestrutura adequada, mão de obra qualificada, acesso a recursos e créditos financeiros. O que nos falta é cultura empreendedora e incentivos à inovação. Somos mimados pelos governos, mas a fonte está exaurindo. É a hora de repensar as soluções, antes que o poço seque de vez.

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Ricardo de Figueiredo Caldas é presidente do Sinfor – DF. Engenheiro e Mestre em Engenharia Elétrica pela UnB, é fundador da Telemikro SA. 

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